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quarta-feira, 7 de março de 2012

EX-PROFESSORA DA UNIBALSAS DIZ: "CONHECI A REALIDADE DA MISÉRIA EM BALSAS"

EX-PROFESSORA DA UNIBALSAS DIZ: "CONHECI A REALIDADE DA MISÉRIA EM BALSAS"
‘‘Eu vivi o descaso, a política da fome e a exclusão social. Aprendi muito. Hoje sou uma pessoa melhor. Tenho outra visão da vida’’. A afirmação é da londrinense Walkiria Benedeti Cardoso Araújo, que passou um ano no Maranhão, entre 2010 e 2011, lecionando na Faculdade de Balsas (UniBalsas), no sul do Estado.
Para ela, é difícil expressar em palavras tudo o que vivenciou durante este período.
‘‘Enxerguei de perto e ‘senti na pele’ o que a maioria das pessoas só vê na televisão’’, diz.
Bacharel em Direito, com duas especializações – em Bioética e Direito Público com ênfase em execuções penais – e mestrado em Direito Negocial pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Walkiria ficou muito interessada quando soube que a Faculdade de Balsas estava contratando professores para o curso de Direito. ‘‘Queria conhecer a realidade de lá. Enviei o meu currículo e logo acertamos tudo. Quando vi já estava com a passagem em mãos. Inicialmente fui sozinha e depois de 40 dias meu marido foi também’’, lembra.
O fato de o Estado do Maranhão apresentar IDH(Índice de Desenvolvimento Humano) entre os menores do Brasil, pouco mais de zero, pesou para Walkiria aceitar o desafio. Na época em que embarcou, ela já pesquisava há mais de oito anos a mistanásia, um tipo de eutanásia social, que significa a ‘‘morte da dignidade humana’’.
Em uma das regiões mais pobres do Brasil, ela reuniu subsídios para publicar um livro sobre o assunto. O projeto está em andamento, mas ainda não tem data definida para ser finalizado. ‘‘Entrei nas comunidades, conversei com as pessoas, senti como elas vivem. Tive um choque cultural, pois é tudo muito diferente.
"Conheci a realidade da miséria’’, ressalta.
Além da pobreza, a professora ficou chocada quando começou a lecionar e se deparou com alunos analfabetos funcionais no curso superior. ‘‘Fui com garra para dar a melhor aula possível. Tenho especializações, mestrado. Mas quando conheci os alunos me deparei com uma realidade muito diferente.
Eu chorei muito’’, conta Walkiria, lembrando que chegou ao ponto de uma aluna dizer que a turma não estava entendendo o que ela dizia nas aulas. ‘‘Nesse dia fui para casa inconformada. Precisei mudar a forma de dar aula. Comecei a dar o básico, apenas o necessário’’.
A passagem da londrinense pelo Maranhão não passou despercebida.
Ela ficou incorformada ao perceber o poder da família Sarney, que domina o Maranhão há quase 50 anos.
‘‘Eu me pergunto quando a família Sarney vai devolver o Maranhão ao Brasil. Lá a política manda e a realidade social é um ‘caos’’’, considera.
Diante disso, e após ouvir inúmeras queixas de alunos, orientou uma turma, cuja maioria estava na segunda graduação, a formar um Comitê de Ética e Cidadania, acionar o Ministério Público e questionar as injustiças. ‘‘Era preciso fazer alguma coisa. Como professora não podia deixar de passar o meu conhecimento. Mas admito que senti medo. Comecei a incomodar, tanto que o prefeito de Balsas (Chico Coelho - PMDB) queria me conhecer, mas isso acabou não acontecendo’’, relata, acrescentando que o aluno que encabeçou o grupo chegou a receber ameaça de morte. Segundo ela, a manifestação dos alunos aconteceu, mas nada mudou. ‘‘A realidade continuou a mesma. A única coisa que aconteceu é que o aluno que liderava o grupo foi demitido de seu emprego. Ele era repórter’’, lamenta.
povo nordestino
Apesar das inúmeras dificuldades, Walkiria não se arrepende de tudo o que viveu. Após um ano, quando o contrato com a faculdade terminou, decidiu voltar para Londrina. Entre as experiências mais marcantes, ela destaca o fato de ter conhecido o povo nordestino, que segundo ela, é guerreiro e feliz. ‘‘As pessoas de lá não são infelizes. Pois não conhecem o que é bom na vida. Não sabem o que é teatro, cinema, shopping. Não são ambiciosas’’, define.
Outra característica marcante é a religiosidade. ‘‘São católicos fervorosos. Vão para as ruas celebrar as festas populares’’, observa Walkiria, que aos poucos está retomando a sua vida pessoal e profissional. Atualmente é docente da Faculdade Dom Bosco de Cornélio Procópio.

sábado, 19 de novembro de 2011

POBREZA E MISÉRIA: MARANHÃO MAIS UMA VEZ PASSA VEXAME EM REDE NACIONAL

POBREZA E MISÉRIA: MARANHÃO MAIS UMA VEZ PASSA VEXAME EM REDE NACIONAL
A equipe do JN no Ar foi para o Maranhão, mostrar como é a vida em um município do estado que tem o menor rendimento médio, segundo o IBGE.
A equipe encontrou muita gente sofrendo, reclamando por falta d’água e também usando uma água muito barrenta, que era só o que tinha. São brasileiros de Vargem Grande, no interior do Maranhão, que mal ganham para comer. A TV Mirante teve participação fundamental no trabalho, que começou nas primeiras horas do dia.
O avião do JN no Ar voou três horas do Rio até São Luís, capital do Maranhão. A equipe chegou no começo da madrugada e ainda não tinha amanhecido quando partiu para vargem Grande. Uma viagem de duas horas pelas BRs 135 e 222, onde a equipe flagrou 15 pessoas na carroceria de uma caminhonete.
Vargem Grande tem quase 50 mil habitantes, segundo o IBGE. Desse total, 36% da população vivem com a renda de até R$ 70, patamar considerado de extrema pobreza.
É assim que Dona Marlene vive. “A gente compra um quilo de carne, um fardo de arroz, e o que sobra? Nada. Mas a gente ainda precisa da roupa, do calçado, da rede para dormir”, lamenta.
A renda média mensal dos moradores de Vargem Grande não passa dos R$ 156, segundo o IBGE. Boa parte dos moradores depende de ajuda do Governo Federal. Nesta sexta-feira (18), por exemplo, era dia de entrega do Bolsa Família. A fila era grande desde as primeiras horas da manhã.
Para quem tem no programa social a única fonte de renda, é difícil escapar da fome. Dona Maria José e as duas filhas vivem com R$ 134, por mês, do Bolsa Família. Mas tem uma hora do mês que o dinheiro acaba e a comida também. Há cinco dias, só tem arroz para comer.
Em outra casa, pé de frango é o único alimento da família. Pelas ruas do centro da cidade, esgoto correndo a céu aberto. O mesmo acontece na porta do único hospital da cidade. A falta de saneamento básico, que abrange coleta de lixo e redes de água e esgoto, atinge mais de 50% da população.
O bairro de Fátima, um dos mais pobres da cidade, fica na periferia de Vargem Grande. A maior parte das casas é feita de taipa, não tem esgoto, a água corre pelo chão. E o uso do banheiro é uma dificuldade.
As famílias cavam poços atrás de água, mas não dá para usar porque tem muita sujeira no que encontram. A maior parte dos moradores tem que buscar água a muitos quilômetros de distância.
Uma família depende do único açude na zona rural e só encontra água barrenta: “Nós não temos outra opção, não temos poço, não temos nada. A água que temos é essa. Nossa solução é essa daqui”, diz uma moradora.
“É um município pobre e que não tem rendas próprias, infelizmente a gente tem que depender do Governo Federal e do governo do estado para que a gente possa fazer alguma coisa em benefício da população”, declarou Miguel Fernandes (PMDB), prefeito de Vargem Grande.
A economia que cresceu com base no comércio e na produção artesanal de cerâmicas, registra índices altos de desemprego e violência.
Outra carência do município de Vargem Grande é a educação. No povoado de Bananal, a única escola para as dez crianças da zona rural tem parede caída, cadeiras e mesas inadequadas para crianças pequenas e um teto que não protege da chuva.
O índice de analfabetismo no município é considerado alto pelo IBGE. “Muitas vezes, eles perguntam muito pela merenda. Que horas chega a merenda, se tem merenda, porque estão com fome. Aí atrapalha muito porque, às vezes, eles vêm mais pensando na merenda”, revela a professora Orlene Mesquita Silva.
Esta terra, onde direitos básicos só são conquistados com muita luta, é um pedaço do Brasil que muitos brasileiros não conhecem.
O governo do Maranhão enviou uma nota à equipe do Jornal Nacional, segundo ele, dando algumas explicações que influenciariam nesse resultado de o estado ter a menor renda média familiar, de acordo com o IBGE.
Uma das explicações seria o fato de que, no estado, as famílias têm muitas crianças e adolescentes, o que significa menos gente trabalhando, por isso um salário menor e renda mais baixa.
A outra explicação seria a grande concentração da população na zona rural, onde os salários são mais baixos e as rendas também.
O JN no Ar segue par Vinhedo, no interior de São Paulo, um dos estados mais ricos da União, para fazer uma comparação com Vargem Grande e mostrar as desigualdades sociais entre as duas cidades, segundo dados do IBGE.
Fonte: Blog de John Cutrim / Jornal Pequeno